ESQUEMA
Advogado alegou que policial apenas guardou Hilux para um suposto amigo
FOTO: FOTOS ALISSON GONTIJO
Na garagem. Rastreador no veículo permitiu a localização da Hilux, que já estava com placa do Rio de Janeiro dois dias após o roubo
A localização ontem de uma caminhonete roubada revelou um esquema de clonagem de carros roubados que contaria com a participação de um Policial Civil Mineiro. A Hilux, avaliada em R$ 110 mil, foi encontrada na casa do policial aposentado Edson Eduardo Sales Gomes, 44, graças ao rastreador implantado no veículo. Há dois dias, o dono do carro havia sido alvo de homens armados que levaram a caminhonete, R$ 18 mil em cheques, documentos e um notebook.
O policial não foi encontrado em casa, uma residência de alto padrão do bairro Trevo, na Pampulha. Apenas uma filha de Gomes, uma adolescente de 16 anos, estava no imóvel quando os policiais militares chegaram.
O advogado Ricardo Neiva, que acompanhou a retirada do veículo da residência, alegou que tudo não passava de um mal-entendido. Segundo ele, o policial, que estaria viajando, apenas guardou a caminhonete dentro de casa a pedido de um amigo que ele não soube identificar quem seria. O advogado garantiu ainda que Gomes se apresentaria ao Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran-MG) para prestar esclarecimentos e "entregar" o suposto amigo que pediu para guardar o carro. Até o fechamento desta edição, no entanto, o policial não havia comparecido à delegacia.
O que chamou a atenção dos policiais e do próprio dono do automóvel foi que, apenas 48 horas após o roubo, a caminhonete já estava com a placa mudada, como se tivesse sido registrada no Rio de Janeiro.
O veículo, localizado por meio de um rastreador, foi roubado por dois homens, na manhã da última terça-feira, no bairro São Francisco, na região Noroeste da capital. A vítima, que teve uma arma apontada para a cabeça, ficou revoltada quando descobriu onde o carro estava. "É uma indignação e uma impunidade total. No mínimo, espero que sejam levantados os fatos e que os responsáveis sejam punidos", disse o empresário Marco Aurélio Tamietti, 50.
Foi ele quem acionou a Polícia Militar, no fim da manhã de ontem, após ter sido avisado pela empresa de segurança que monitorava a caminhonete que o veículo estava na Pampulha. Um helicóptero foi usado para vasculhar a região. Foram três horas de buscas até a localização da Hilux.
"Pedimos a um vizinho para olharmos dentro do imóvel. Vimos um carro com placa do Rio e pensamos que não fosse o carro roubado, mas a vítima conseguiu identificá-lo por alguns detalhes, como um arranhão na lataria e um amassado", contou o tenente Marcos Antônio Moreira, que comandou a ação.
QUADRILHA ORGANIZADA
Novo CRLV em tempo recorde
A Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos instaurou um inquérito para investigar o crime. De acordo com uma fonte da Polícia Civil, que pediu para ter o nome preservado, o roubo pode envolver uma quadrilha bem organizada.
Segundo a fonte, a rapidez dos criminosos em conseguirem um novo documento para o veículo reforça a suspeita. No carro foi encontrado um Certificado de Registro e Licenciamento (CRLV) atualizado, como se a caminhonete tivesse sido emplacada no Rio de Janeiro. Na documentação, a empresa Espar Estacionamento Ltda., também do Rio de Janeiro, aparece como proprietária da caminhonete. A empresa não foi localizada pela reportagem.
Alguns acessórios, como capota e reboque, foram retirados da Hilux para deixá-la idêntica a um carro do mesmo modelo que circula por ruas do Estado vizinho.
"Essas coisas não são fáceis de serem feitas. Uma pessoa sozinha não teria como articular todo o crime de maneira tão rápida", explica o investigador. De acordo com ele, a clonagem pode envolver despachantes e até pessoas de dentro do Detran, que podem ter facilitado a liberação do veículo com as novas características. "Não podemos garantir que aconteceu isso, mas os indícios existem porque há histórico desse tido ocorrência em Belo Horizonte".
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Polícia Civil informou que vai aguardar o andamento das investigações para se pronunciar sobre o roubo do veículo e da suposta participação do policial no crime. O inquérito instaurado ontem deve ser concluído em até 30 dias.(RV)
MINIENTREVISTA COM
Marco Aurélio Tamietti
"Quem vai desenrolar esse novelo vai ser o policial"
Como aconteceu o roubo?
Estava chegando na minha empresa para trabalhar. Quando parei e abri a porta do carro, fui surpreendido por dois homens armados.
Qual foi a reação do senhor?
Levantei as mãos, pedi para me deixarem ir embora e para não fazerem nada comigo. Ainda bem que estava bastante tranquilo e não pensei em reagir. Eles entraram no carro e foram embora, com meus documentos, fotos da minha família e cheques.
Como foi reencontrar a caminhonete?
Foi um alívio. O susto aconteceu quando abri o porta-luvas e vi uma pasta com as fotos da minha mulher e meus quatro filhos. Fiquei com medo, imaginando que os criminosos pudessem estar planejando um sequestro.
Como foi para o senhor saber que o carro estava na casa de um policial?
A gente espera tudo nessa vida, menos que um fato desse envolva um policial, que deveria dar o bom exemplo. É uma decepção e uma indignação total. A chave do meu carro estava em uma gaveta da casa dele junto com a de outra caminhonete. Serão quantos carros roubados até hoje? Quem vai desenrolar esse novelo vai ser o policial. (RV)




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