sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O século 19 manda lembranças

Eduardo Costa
Eduardo Costa
ecosta@hojeemdia.com.br


15/01/2016

Experimente fechar os olhos, deixar-se relaxar por cinco minutos e, em seguida, ainda com a cabeça na famosa “caixa do vazio” que – dizem – só os homens têm, peça a alguém para ler duas ou três notícias do jornal de hoje. Se você tiver mais de 50 anos ou for jovem muito interessado pela história da humanidade terá nítida impressão de que está vivendo no século 19.
Um amigo meu está com tuberculose, vários tiveram dengue recentemente, e minhas colegas grávidas levam citronela, repelentes industriais e outros apetrechos para se protegerem contra os mosquitos que podem afetar seus futuros bebês. Algumas trabalham sempre com roupas compridas, cobrindo todo o corpo, independentemente da temperatura e do ar-condicionado... O medo está no ar.
Passei a dar mais importância a esses detalhes nessa quarta, quando ouvi entrevista do secretário de saúde de BH, Fabiano Pimenta, confirmando a falta de várias vacinas. A explicação dele convence porque é verdadeira: para ganhar no preço, o governo federal compra para todo o país e, nesta economia de escala, impregnada pela burocracia estatal e os senões das concorrências, com recursos, impugnações e outras encrencas, costuma atrasar.
Em consequência, Estados e municípios correm o risco, sempre, de ter falta desta ou daquela vacina para imediato atendimento da população. Como resultado, é comum as autoridades darem conselhos do tipo “vá a um posto da prefeitura e, se não encontrar, procure então no Estado”, ou, “antes de ir, ligue e pergunte se tem”.
É doido ou não é? Nas últimas décadas, o Brasil fez bonito no calendário de vacinas e no atendimento às vítimas do HIV. Agora, essa! Então, os mesmos governantes que já estão na história por trazer de volta o pavor dos cérebros pequenos, ameaçam nosso futuro com doenças que a maioria da população só conhece por conta da caderneta de vacinas: BCG, hepatite, difteria, sarampo... Só pegando no terço e pedindo a papai do céu que nos poupe da volta da talidomida!
E, não bastasse, a gente tem as tragédias paralelas. Em Mariana, furtaram as máquinas que trabalhavam contra a lama da Samarco; em Montes Claros, vestido de agente de saúde, o assaltante pediu licença para combater o “Aedes” e roubou o dono da casa com arma na cabeça; no Sul de Minas, uma empregada, chamada Dagmar, começou a escrever cartas para a patroa como se fosse um espírito... Nas primeiras, falou de paz, em seguida, elogiou a idosa, dias depois começou a mandar recados do tipo: “Ajude a Dagmar, ela precisa de uma casa como a sua”... Ou seja, até os recados do “além” merecem cuidado especial nos nossos tempos.
De uma forma geral, falta educação. Nos últimos dias – e em ação que deveria ser rotina – a prefeitura da capital tem feito mutirões. Nos córregos que deságuam na Pampulha encontraram geladeira, fogões, caixotes e muito mais. No aglomerado São Lucas, havia de tudo um pouco em cima das lajes dos barracões... Lixo, que junta bicho, traz doença, ameaça a vida. E as pessoas não desapegam.
Vivemos a era do esquisito. De novo, onde a gente vai tem alguém pedindo emprego, seja pedreiro, motorista ou jornalista. E é melhor não ir para a política por que, aí, o retrocesso é de séculos, talvez chegue a Vespasiano, diante da proximidade da morte, avisando ao filho Tito que deveria fazer uma obra suntuosa, para a diversão para garantir dinheiro aos amigos e alegria do povo... “Pão e circo”!.

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