sexta-feira, 8 de abril de 2016

O que acontece se a gente queimar todo o petróleo do mundo?

Estudo analisa época que tinha a mesma quantidade de CO2 na atmosfera que teremos, no futuro, se queimarmos todas as reservas. O resultado pode ser considerado catastrófico

BRUNO CALIXTO- Época
07/04/2016 - 15h24 - Atualizado 07/04/2016 16h37
Plataforma de petróleo no litoral do Rio de Janeiro (Foto: Mario Tama/Getty Images)
Estima-se que debaixo da terra, enterrado na forma de petróleo, carvão e gás, pelo menos 2.795 gigatoneladas de carbono disponíveis para ser explorados pela humanidade. Se nós tivermos realmente a intenção de impedir um aquecimento global maior do que de 2ºC, o considerado seguro pela ONU, a maior parte desse carbono precisa continuar enterrado. Mas o que acontece se todo esse petróleo, carvão e gás for queimado em indústrias e usinas nas próximas décadas?
>> O futuro do clima está no subsolo
Um estudo publicado nesta quinta-feira (7) na revista Science faz esse exercício. O estudo, assinado pelo geólogo Richard Alley, da Penn State University, nos EUA, analisa a última época em que a Terra teve tanto CO2 na atmosfera quanto nós teremos se queimarmos todo esse petróleo. Um estudo dos registros fósseis dessa época geológica pode indicar o que vem pela frente no clima do mundo.
A época estudada aconteceu há 55,9 milhões de anos - cerca de 10 milhões de anos depois da extinção dos dinossauros. Nessa época (o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, ou MTPE, no jargão da geologia), a movimentação de placas tectônicas e erupções vulcânicas gigantes liberaram uma grande quantidade de CO2 na atmosfera. Segundo o estudo, essa quantidade é similar ao CO2 que lançaremos no futuro se as reservas de combustíveis fósseis forem queimadas.
Segundo o registro fóssil, esses foram alguns dos efeitos de se soltar tanto CO2 no ar:
- A temperatura do planeta esquentou 6ºC durante os 20 mil anos em que dura o período estudado. O aumento de temperatura modificou correntes de ar. Com isso, as tempestades ficaram mais intensas, porém separadas por longos intervalos de seca;
- Os grandes mamíferos "encolheram" para se adaptar a condições extremas de temperatura e escassez de alimentos. Muitos animais foram extintos. Sobreviveram animais menores, mais ágeis e generalistas;
- Os oceanos ficaram mais ácidos. Os recifes de corais praticamente desapareceram, e os oceanos passaram a ser dominados por organismos menos complexos, como os foraminíferos;
- Os solos ficaram menos férteis e mais pobres, com aumento da erosão e diminuição dos nutrientes necessários para as plantas.
Claro que o fato de esses impactos terem ocorrido no passado não quer dizer que, necessariamente, acontecerão no futuro. O estudo reconhece as incertezas envolvidas nas previsões. Mas é pessimista, e teme que nosso futuro pode ser ainda pior. Isso porque vulcões e efeitos naturais precisaram de 20 mil anos para lançar todo esse CO2 na atmosfera. A humanidade está fazendo o mesmo em pouco mais de dois séculos, uma escala de tempo muito mais rápida.
"O que está claro, no entanto, é que a alta emissão de CO2 durante o MTPE transformou as condições na terra e nos oceanos em maneiras que afetam os sistemas da Terra por mais de 100 mil anos e que isso pode ser considerado como catastrófico por muitas pessoas nos dias de hoje. A história do MTPE mostra que nossas próprias decisões terão consequências de longa duração", conclui o estudo.

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