quinta-feira, 12 de maio de 2016

Como os evangélicos abençoaram Temer

Ideias

Depois de romper o casamento de interesses com o PT e votar em bloco contra Dilma, a bancada religiosa agora promete orações — e votos — pelo sucesso do vice

MARCELO MOURA, COM JULIANA DAL PIVA*
11/05/2016 - 22h28 - Atualizado 11/05/2016 22h28- Época
Ilustração sobre fotografia de Michel Temer. Atencioso com pastores, o vice-presidente caiu nas graças de religiosos como alternativa a Dilma (Foto: Editoria de Arte)
Um tema instrumental se fez ouvir no 34o congresso internacional Gideões Missionários da Última Hora, encontro de igrejas evangélicas encerrado no dia 3 de maio, em Camboriú, Santa Catarina. Era o hino do Brasil, que introduziu um pronunciamento do vice-presidente, Michel Temer, em um vídeo gravado especialmente para o evento. “Nós, que somos religiosos — e eu tomo a liberdade de dizer que a palavra religião vem de religo, religare —, nós todos queremos fazer uma religação dos brasileiros. Com muita fé, nós todos, eu também, vamos orar pelo nosso país.” No fim do vídeo, de dois minutos, uma bandeira do Brasil tremulou como pano de fundo para uma citação à Bíblia: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Ao falar aos missionários, Marco Feliciano, deputado federal (PSC-SP) e pastor evangélico, fez uma pregação: “Dentro de 15 a 20 dias, esse homem vai assumir a Presidência da República do Brasil”, disse Feliciano. “Não sei se você ouviu ele (Temer) dizer ali: ‘Nós, que somos religiosos’. Ele é um homem temente, um homem que pede oração humildemente. Tenho certeza de que Deus vai mudar nossa história e a história do Brasil. Eu queria que toda a igreja agora levantasse as mãos para o céu. Nesse momento, nós decretamos que esse espírito que dividiu o país está sumindo daqui. Porque um tempo de unidade, de prosperidade, vai cair sobre a nação brasileira. Ordenamos que todos os demônios desapareçam da nossa nação. E profetizamos que o Brasil é do senhor Jesus.”
Nos dias tumultuados que antecedem a votação no Senado que poderiam lhe entregar provisoriamente a Presidência da República, Michel Temer encontrou tempo para gravar o vídeo com o pastor Feliciano. Dias antes, recebera o pastor Silas Malafaia, fundador da igreja evangélica Assembleia de Deus – Vitória em Cristo. É um gesto coerente de um político que, na campanha de 2010, como candidato a vice de Dilma, abriu seu gabinete de deputado ao jornal Folha Evangélica: “Acho que Deus me mandou aqui para a Câmara. No meu gabinete, são todos evangélicos”. “Foi um agradecimento pelo meu empenho na votação do impeachment”, diz Malafaia, a respeito do encontro com Temer. “Se alguém fez campanha pressionando deputados evangélicos na questão do impeachment, fui eu. Tenho um Twitter muito forte. Sabia que tinha um jogo de negociata para votar a favor do governo. Avisei que se deputado evangélico topasse negociata, eu poria um adversário no Estado dele, para derrotá-lo na eleição.” Dos 189 deputados da Frente Parlamentar Evangélica presentes à votação, 159 (84%) aprovaram o impeachment. É um percentual muito acima dos 72% observados no total da Câmara, ou dos 73% observados na Frente Parlamentar Católica.
Juntos, católicos e evangélicos formam um impressionante contingente de 317 deputados, contra 196 que não pertencem a nenhum dos dois grupos (leia o gráfico a seguir). O grupo evangélico representa o pensamento dos pastores dentro do Congresso. Maior do que a soma das bancadas de PMDB (66 deputados), PT (60) e PSDB (52), a Frente Evangélica foi decisiva para a aprovação do impeachment de Dilma na Câmara. Como disse o jornal El País ao analisar as justificativas apresentadas por deputados: “Deus derruba a presidenta do Brasil”.
Votação impeachment Câmara (Foto: Editoria de Arte)
A votação maciça contra Dilma marcou o fim de mais de uma década de casamento consistente entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e as igrejas evangélicas. O flerte se iniciou em um jantar para 900 pessoas em uma churrascaria na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, no segundo turno da campanha eleitoral de 2002. Nascido com forte influência de movimentos pastorais de esquerda da Igreja Católica do fim dos anos 1970, o PT tentava ampliar sua aceitação nos círculos religiosos para chegar ao poder, depois de três derrotas. Era a fase do “Lulinha paz e amor”, da Carta ao Povo Brasileiro e de esquecer por um tempo pautas progressistas — como casamento gay e direito de escolha da mulher — que nunca haviam sido hegemônicas dentro do PT justamente pela influência da Igreja Católica. Na churrascaria, Malafaia reuniu líderes de igrejas como Metodista, Batista, Sara Nossa Terra, Universal e Assembleia de Deus que não haviam fechado com o tucano José Serra. Lula citou a Bíblia: “Se a gente permitir que prevaleça a teoria do medo, a gente vai voltar milhares de anos atrás, quando Herodes, por medo do novo, queria matar todas as crianças à procura de Jesus”. “Vocês nunca, na história da igreja evangélica, foram chamados à responsabilidade e a participar da construção deste país como eu vou chamar”, afirmou (é interessante notar que, até hoje, os religiosos se distribuem equanimemente pelos principais partidos, do PT ao PSDB, do PMDB ao PDT).
>> O jeito evangélico de pedir votos
Eleito presidente, Lula retribuiu o apoio de Malafaia ao dar-lhe uma das 90 cadeiras no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, criado para aproximar o governo da sociedade. Chefe de gabinete e amigo do presidente, o ex-seminarista Gilberto Carvalho foi encarregado de dialogar com movimentos sociais. “Logo vi que o Conselhão não resolvia nada, não mandava em nada. Era só balela, uma fogueira de vaidades”, diz Malafaia.
Devastado pelo escândalo do mensalão, em 2005, o governo Lula buscou forças em sua militância mais fiel — e distanciou-se da agenda dos religiosos. Em 2006, lançou o Programa Brasil Sem Homofobia, para combater nas escolas a intolerância contra homossexuais. “Ideologia de gênero não passa de erotizar criança”, diz Malafaia. “A coisa mais covarde que tem é colocar criança indefesa na mão de esquerdopatas ensinando.” Anos depois, esse programa daria origem a uma série de vídeos educativos, produzidos por ONGs, com recursos do MEC, contra homofobia. O material ficou conhecido como “kit gay”. Para derrubá-lo, o então deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), vice-presidente da bancada evangélica, ameaçou parar as votações da Câmara e convocar o então ministro Antonio Palocci a explicar negócios suspeitos. Em menos de 24 horas, o governo recuou.
A tensão permanente era administrada pela habilidade política do presidente. “Lula tinha equilíbrio, conseguia ouvir os dois lados”, diz o bispo Rodovalho, presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil (Consepab) e do Ministério Sara Nossa Terra. Nem Lula, porém, conseguiu conter o desconforto dos religiosos ao assinar, em 2010, o Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). O texto propõe leis para descriminalizar o aborto e proibir símbolos religiosos em lugares públicos, além de permitir casamento civil e adoção de crianças por homossexuais. “Foi um documento extremamente ousado”, diz Ricardo Mariano, professor de sociologia da religião da Universidade de São Paulo (USP). “O governo do PT não soube separar demandas da sociedade e programa de governo”, diz o deputado federal João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Evangélica. “Tentou impor mudanças sociais por decreto, sem discutir com o Parlamento.”
O debate sobre questões morais dominou a eleição presidencial de 2010. A candidata Dilma, que em anos anteriores defendera o direito ao aborto, divulgou uma “Carta Aberta ao Povo de Deus”, dizendo que costumes seriam um problema do Congresso. “Dilma cumpriu o que prometeu”, diz Malafaia. “Tirando a semana retrasada, quando assinou uma lei que libera o banheiro feminino para rapazes que se sentem mulheres, ela não se meteu nessas questões. O problema com ela foi mais de estilo.”
>> O poder do voto evangélico na eleição presidencial de 2014
Ao demitir Gilberto Carvalho, em 2015, Dilma ficou sem interlocução com os religiosos. “No início, achamos que ela manteria o jeito de Lula. Mas não”, diz Rodovalho. “Nunca participou de um evento, nunca nos recebeu no Palácio para discutir políticas do segmento.”
Quando o processo de impeachment foi aberto, os evangélicos tinham pronto o discurso para aprová-lo. O PRB entregou o ministério que tinha a cinco dias da votação na Câmara, votou em bloco contra Dilma e recebeu de Temer a oferta da pasta da Ciência e Tecnologia.
*Da Agência Lupa, especializada na checagem de dados e discursos públicos. @LupaNews
PT e os evangélicos (Foto: Editoria de Arte)
 
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Daiane Firme
há 6 horas
Historicamente nós evangélicos nunca fomos partidários de Comunismo/socialismo/marxismo, pois estas ideologias só trazem fome e miséria. Não precisamos que o Estado seja o nosso provedor. O Estado tem que devolver de maneira correta e honesta o dinheiro dos nossos impostos. Não precisamos da Esquerda para inclusão social. A melhor forma de inclusão social chama-se Trabalho e Educação.

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