quinta-feira, 12 de maio de 2016

Meirelles, o ministro de Temer que Lula quis para Dilma

Tempo

Prestes a assumir a Fazenda, ele terá de empenhar credibilidade, experiência e poder de negociação para tirar o país da pior crise em décadas

SAMANTHA LIMA- Época
12/05/2016 - 15h45 - Atualizado 12/05/2016 16h27
Ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles  (Foto: Ed Ferreira/Brazil Photo Press/Folhapress)
Há pouco mais de seis meses, Henrique Meirelles, hoje iminente ministro da Fazenda do governo Temer, era o nome que Lula tentava impor ao governo de Dilma Rousseff como único capaz de promover a reviravolta na economia que ajudaria a salvá-la do impeachment. Lula, que tão bem conheceu Meirelles nos oito anos em que fora presidente da República, via nele o homem que, em substituição a Joaquim Levy, traria a economia de volta aos trilhos onde esteve nos anos de popularidade do governo PT, e de onde descarrilou nos últimos três anos. Lula tem apreço pela capacidade técnica e pela credibilidade de Meirelles, um dos pilares nos quais o mercado se escorou para largar as desconfianças iniciais em relação ao ascendente governo petista. O lobby não foi suficiente – Dilma não gostava de Meirelles.
Passado meio ano, curiosamente, Meirelles, o homem que, para Lula, seria um dos diques de contenção do impeachment, foi um dos que deram declarações sobre a economia no modo “ministro stand-by”, dias antes de consumada a abertura do processo pelo Senado. Agora, com o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer, Meirelles está prestes a tornar-se o 94º ministro da Fazenda da República. Investido no cargo, será o homem que terá de empenhar toda a sua experiência, prestígio e credibilidade num esforço em duas etapas. Nas próximas semanas, terá de dar ao mercado os sinais necessários de que colocará o país na rota de saída da maior recessão de sua história. E, caso Dilma perca o mandato, quando julgada pelo Senado em até 180 dias, ele terá de mostrar, até 2018, capacidade para ajudar o país a avançar realmente por essa rota.
>> Como o Brasil entrou sozinho na pior crise da história
O primeiro cargo eminentemente político que Henrique Meirelles assume, aos 70 anos, chega com 14 anos de atraso, considerando a data em que ele começou a buscar um.  Suas ambições políticas eram acalentadas desde o tempo em que era um dos principais executivos internacionais do americano FleetBoston, então controlador do BankBoston, onde trabalhou por quase 30 anos – o FleetBoston foi comprado pelo Bank Of America em 2004. Em 2002, ele abandonou a bem-sucedida carreira de banqueiro – currículo que ajudou a construir a credibilidade de que hoje desfruta -- para candidatar-se a deputado federal pelo PSDB em Goiás. Foi o mais votado do estado, com 183 mil votos.
Com o PSDB alijado do governo federal pela eleição que consagrou a chegada do PT ao poder, seu caminho natural seria engrossar a oposição. Acabou nomeado pelo petista recém-eleito presidente, Lula, como presidente do Banco Central, um cargo mais técnico do que político. Ali, amparado pelo status de ministro, aproximou-se do então presidente, com quem tinha interlocução direta, segundo técnicos com quem trabalhou no BC.
>> Temer e Meirelles definem prioridades na economia
Meirelles segurou o solavanco de críticas dos setores mais à esquerda do PT ao manter, e até aumentar, a taxa básica de juros, para acima de 25% ao ano, no primeiro ano do governo Lula. As queixas foram do mesmo conjunto daquelas que ajudaram a minar, em 2006, o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que seguia uma política econômica ortodoxa (ou seja, com ênfase na contenção da inflação e na saúde das contas públicas)  – sua queda, no fim, foi determinada pelo episódio de quebra de sigilo de um caseiro.
Meirelles, porém, seguia impávido -- mesmo com a política monetária apertada, que mantinha a taxa básica de juros, a meta da Selic, acima de 15% ao ano. Resistiu no cargo até depois da chegada ao Ministério da Fazenda de Guido Mantega, mais alinhado com o que desejavam segmentos petistas favoráveis ao pensamento econômico heterodoxo (que admite ciclos de maior inflação ou piora das contas públicas, se isso gerar mais empregos em momentos de necessidade). Mais para o fim daquele ano, a inflação começou a arrefecer e, então, Meirelles liderou a política monetária em um suave movimento de corte dos juros, da casa dos 15% para pouco menos de 9% ao ano, que durou três anos.  Só deixou o BC com a eleição de Dilma, em 2010.
Meirelles é engenheiro formado pela Escola Politécnica da USP, com pós-graduação em Harvard. Desde que deixou o Banco Central, em 2011, presidiu os conselhos de administração do grupo J&F, que controla a JBS e a Alpargatas entre outras marcas, e do banco Lazard.  Foi também conselheiro da Azul Linhas Aéreas e do Lloyd´s de Londres. Meirelles levou cinco anos até assumir novamente um cargo executivo. Tornou-se, no início deste ano, presidente do banco Original, também do grupo J&F. Criado há alguns anos com o objetivo inicial de dar crédito para criadores de gado, o Original foi relançado há dois meses, com participação entusiasmada de Meirelles, que queria torná-lo um banco voltado para a alta renda, como no BankBoston, e 100% digital. Agora, de acordo com sua assessoria de imprensa, ele vai se afastar de todos os cargos para se dedicar à Fazenda e ao desafio de ajudar o governo e o país a deixar a crise.

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