sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Música - O fenômeno da "telobalização" - Na voz de Michel Teló, hit"Ai Se Eu Te Pego" alcança feitos inéditos para o mercado brasileiro e gera curiosidade no exterior

Publicado no Jornal OTEMPO em 06/01/2012
FOTO: SOM LIVRE/DIVULGAÇÃO

Ícone. Revelado pelo Grupo Tradição, de Campo Grande (MS), Michel Teló tornou-se o principal ícone do estilo sertanejo universitário
SOM LIVRE/DIVULGAÇÃO
Ícone. Revelado pelo Grupo Tradição, de Campo Grande (MS), Michel Teló tornou-se o principal ícone do estilo sertanejo universitário
Os feitos, sem sombra de dúvida, são impressionantes. Apenas nesta semana, o cantor paranaense Michel Teló e seu principal hit, a música "Ai Se Eu Te Pego", conquistaram a capa da revista "Época", uma matéria generosa na "Forbes" norte-americana, a marca de 100 milhões de visualizações no YouTube e o título de música mais baixada no iTunes em países como Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, Holanda, Bélgica, Polônia, Grécia, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. Até mesmo em Kosovo, conta o estudante Naim Korqa, a música tem feito bastante sucesso.
Vivendo em Belo Horizonte há cerca de três anos, Korqa viajou ao seu país de origem no fim de 2011 e se deparou com diversos amigos bastante entusiasmados com o par de estrofes popularizadas por Michel Teló.
"Cheguei em Kosovo há cerca de 15 dias e, de lá para cá, pelo menos uns dez amigos me encontraram cantando esse mesmo refrão. Pelas conversas, esse sucesso tem muito a ver com o Cristiano Ronaldo, que comemorou um de seus gols com a coreografia da música", conta o estudante, constantemente inquirido sobre o significado da letra.
"É claro que muita gente se decepciona com a falta de criatividade dos versos, mas, uma vez que a música entra na sua cabeça, fica bem difícil de tirar", completa.
Também em Portugal, onde é razoavelmente compreendida, a música tem se tornado uma verdadeira febre entre adolescentes e estudantes universitários. "Pelo que vejo, ela se tornou uma espécie de hino de celebração para os calouros daqui. Tanto o apelo sexual da letra, muito fácil de se memorizar, quanto o ritmo e a coreografia, têm criado situações muito engraçadas, em que os estudantes, de vez em quando, se unem para cantar e dançar em coro", relata o artista português José Maia.
É, aliás, entre Portugal e Espanha que parece estar o principal eixo de popularização da música fora do Brasil. Impulsionada pela visibilidade de atletas como Cristiano Ronaldo e Rafael Nadal, a música se tornou um verdadeiro hino do réveillon em ambos os países, entoada antes, durante e depois das festas.
Na vida da jornalista Maria Lutterbach, que vive em Barcelona e passou o Ano Novo na capital espanhola, "Ai Se Eu Te Pego" tem se mostrado uma trilha quase onipresente.
"Quando eu estava indo para a praça do Sol, ponto da virada em Madrid, todo mundo cantava no metrô. Ao chegar na praça, o que vi foram vários portugas entoando ‘Ai Se Eu Te Pego’ e batucando um cajón. Em Barcelona, é a mesma coisa: a música toca quando menos se espera e todo mundo sabe", diverte-se.
Até mesmo quem está no Brasil, ao que parece, tem sentido efeitos do sucesso da música no exterior. Que o diga a arquiteta mineira Patrícia Algarves que, um tanto alheia ao rebuliço provocado pelo hit de Michel Teló, surpreendeu-se ao receber de uma amiga grega um pedido referente à tradução de uma tal música brasileira muito popular nas baladas da cidade de Alexandroupolis.
FOTO: Leonardo Aversa/Divulgação

Bruno, ex-integrante Los Hermanos publicou carta a Michel Teló
Leonardo Aversa/Divulgação
Bruno, ex-integrante Los Hermanos publicou carta a Michel Teló
Sucesso de Michel Teló lança debate na web
Daniel Toledo
Houve quem estranhasse que, em sua mais recente edição, a revista "Época" apresentasse a música "Ai Se Eu Te Pego" como uma tradução dos valores da cultura popular brasileira. Enquanto alguns, como o músico Bruno Medina, ex-integrante da banda Los Hermanos, simplesmente reclamavam da onipresença da música na mídia nacional, outros criticavam a banalidade do tema explorado pela música- em linhas gerais: um rapaz que se interessa por uma mulher bonita e resolve se aproximar.

Mas, se a letra da música, de fato, não traduz qualquer singularidade da cultura brasileira, talvez a ampla trajetória percorrida pela canção desde a sua origem, em meados de 2008, aponte caminhos mais frutíferos para explicar, ao menos, parte da sua força. Afinal, de modo mais ou menos evidente, sua história inclui elementos que remetem, por exemplo, à música regional gaúcha, ao forró nordestino, ao country de Barretos e até mesmo ao funk carioca.

Foi como um malicioso funk, aliás, que surgiram os primeiros versos de "Ai Se Eu Te Pego". Em linhas gerais, tudo começou no verão de 2008, quando a cantora e apresentadora Sharon Acioly criou um pequeno refrão para animar as apresentações de dança do Axé Moi, popular complexo de lazer situado em Porto Seguro, na Bahia. Repetido à exaustão pelo público das apresentações, o refrão chegou aos ouvidos do compositor baiano Antônio Dyggs e, rapidamente, converteu-se nas duas estrofes que integram a atual versão de Michel Teló.

Antes de ser gravada pelo cantor paranaense, contudo, a música ganhou versões feitas por três bandas de forró: Os Meninos de Seu Zeh e Cangaia de Jegue, da Bahia, e Garota Safada, do Rio Grande do Norte. Já naquela versão, ganhou bastante popularidade no Nordeste.

Somente ao ser lançada por Teló, cujas experiências anteriores remontam ao Grupo Tradição, a música ganhou popularidade no Sudeste e entre algumas figuras de grande visibilidade, tais quais os jogadores de futebol Neymar, do Santos, e Marcelo, companheiro de Cristiano Ronaldo no Real Madrid. O que acontece daí em diante, como os próprios números dizem, é difícil de se mensurar e predizer. Só o tempo dirá se a música de Michel Teló terá vida longa ou apenas entrará para a ampla galeria mundial de hits musicais que, querendo-se ou não, dificilmente serão esquecidos.

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