Acílio Lara Resende
PUBLICADO EM 24/04/14 - 03h00 - O Tempo
Procuro transmitir, nestas linhas, o que de fato penso. Submeto-me, na
escrita, a uma forma que respeite os princípios básicos da civilidade e,
dentro das minhas limitações, os da língua pátria. Mas o respeito ao
leitor, a quem devo atenção, é a minha maior preocupação.
Júlio César Cardoso não é apenas um leitor, pois ele também escreve
textos e os envia a mim com frequência. Num deles (um dos mais
recentes), fez menção ao justo sentimento da filósofa e poeta Adélia
Prado (“Estamos vivendo um tempo muito cinzento, uma ditadura
disfarçada”), mas, ao se referir, especificamente, a um dos meus
artigos, afirmou o seguinte: “Para mim, a política é a arte de tirar
proveito da coisa pública. Para Lênin, onde termina a política, começa a
trapaça”.
Júlio extravasa um sentimento de revolta, de repulsa, hoje dominante no
país, conforme têm mostrado as últimas pesquisas de opinião: “Aliás,
hoje em dia” – continua ele em sua amargurada crítica –, “ninguém sabe
onde começa a política, pois, nem bem acabam de ser eleitos, os nossos
políticos já maquinam as suas reeleições. Conclusão: com raríssimas
exceções, só há trapaceiro exercendo a política”. E arremata: “Ninguém
(na política) está preocupado com a população e com o meio em que vive.
Ninguém está preocupado com uma educação pública de alta qualidade, nos
moldes da Nova Zelândia, Noruega, Suécia etc. Ninguém está preocupado
com a qualidade do serviço de saúde pública. Ninguém está preocupado com
a falta de segurança pública. Mas os nossos políticos e o governo estão
preocupados com magnos eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as
Olimpíadas, com políticas eleitoreiras de cotas raciais nas
universidades e serviços públicos, com abafamento de irregularidades
envolvendo políticos e governos etc.”. E Júlio encerra, finalmente, seu
compreensível desabafo: “Enfim, os nossos políticos só dão despesas
inúteis ao país”.
Depois do desabafo de Júlio César Cardoso, vieram-me à mente, em
primeiro lugar, a presidente Dilma Rousseff e o que disse ela sobre a
compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, que provocou um
prejuízo à Petrobras de US$ 1,2 bilhão. Dilma era presidente do Conselho
de Administração da empresa, cargo que acumulava com o de
ministra-chefe da Casa Civil, e, segundo afirmou, a aquisição da
refinaria foi um péssimo negócio, mas, ao autorizá-lo, se baseou em
“relatório técnico e juridicamente falho”. Pretendeu escapar de uma
responsabilidade que é inegavelmente sua. Diante disso, o ex-presidente
da Petrobras José Sérgio Gabrielli afirmou, em entrevista a “O Estado de
S. Paulo”, que ela não poderá “fugir da sua responsabilidade”.
Já o deputado petista André Vargas, que até outro dia exerceu o cargo
de primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados, tentou usar a
mentira várias vezes para se safar das relações que mantinha com o
doleiro Alberto Youssef. “Não dá para dizer que ele é meu amigo”, disse
Vargas em dado instante. “É, no máximo, um conhecido que me procurava
para trocar ideias”, afirmou depois. Foi desse “conhecido” que o
deputado recebeu de presente uma viagem, com a família, num Learjet 45,
alugado pela bagatela de R$ 100 mil.
O deputado André Vargas, pressionado pelo partido, deverá renunciar ao
mandato. Mas, e a presidente Dilma? Será que lhe assiste o benefício,
concedido ao imperador do Brasil pela Constituição de 1824, de não ser
responsável por nenhum dos seus atos?
Citei dois exemplos, mas há muitos outros por aí.
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