domingo, 8 de novembro de 2009

Escândalos mudam estrutura na polícia Civil



























Cidades Ética. Após denúncias envolvendo policiais do GRE, cúpula da Civil quer mais rigor na conduta
Escândalos mudam estrutura na polícia
Pacote de medidas preparado pela Superintendência Geral quer moralizar corporação
Andréa Silva

Criado em 2004, o Grupo de Resposta Especial (GRE) nasceu com um desafio: ser reconhecido como a tropa de elite da Polícia Civil de Minas. A missão dos 30 policiais escolhidos a dedo pela cúpula da corporação para formar a unidade - entre delegados, inspetores, subinspetores e agentes de polícia - era agir em situações nas quais o que se espera é justamente a habilidade, o rigor e a competência daqueles apontados como os melhores policiais do Estado.

Mas uma série de escândalos e denúncias, que vieram à tona nas duas últimas semanas, levou a Superintendência Geral da Polícia Civil a anunciar a reformulação completa na corporação.

As denúncias vão desde o envolvimento de integrantes do GRE em irregularidades, como compra fraudulenta de veículos, extorsão, a até crimes mais graves, como ameaças de morte e ação de um grupo de extermínio (veja quadro abaixo). As mudanças previstas, ainda não divulgadas oficialmente e sem data para vigorar, vão afetar toda a Polícia Civil.

A reportagem de O TEMPO confirmou que o Conselho Superior da Polícia Civil está finalizando o pacote de medidas que vai alterar a formação doutrinária dos policiais e também a forma de atuação da corporação em ações práticas. Em suma, o que se pode esperar do plano, garantem fontes da Polícia Civil, é que os policiais serão cobrados a agir com uma conduta muito mais rigorosa e ética. Já em relação às ações táticas, o plano quer priorizar o trabalho de investigação, e não somente operações de caráter repressivo.

Em relação ao GRE, o desafio da Corregedoria da Polícia Civil agora é separar o joio do trigo e direcionar as investigações àqueles que realmente mancharam a imagem do grupo. Algumas medidas foram tomadas desde que provas de alguns dos crimes se confirmaram, há 15 dias: oito dos 30 policiais que integram a unidade não estão mais no GRE - dois estão impedidos de participar de operações e seis foram transferidos para outras unidades da Polícia Civil.

O Ministério Público, por meio da Promotoria de Fiscalização da Atividade Policial, também está no caso e solicitou à Corregedoria da Polícia Civil informações sobre as investigações. Não há prazo para o fim do inquérito, mas o que se espera é que o banho de ética realmente funcione.

Ao todo 10 mil agentes integram a Polícia Civil em Minas



Documentos
“Provas estão ganhando forma”, denuncia deputado

O presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, deputado Durval Ângelo, disse que, embora só tenham vindo à tona agora, os escândalos envolvendo integrantes do GRE surgiram em meados de 2008. “Desde o início, as denúncias estão sendo apuradas pela Corregedoria. Antes, não existiam provas, mas, agora, elas estão ganhando forma”, afirmou. Em março deste ano, disse, fotografias que comprovam o esquema de compra de carros com uso de documentos falsos ou roubados foram anexadas ao dossiê.

Na última semana, uma outra grave denúncia apareceu. O parlamentar contou que foi procurado por uma mulher que acredita que o marido seja uma das duas vítimas, apontadas na denúncia, do grupo de extermínio supostamente formado com a participação de policiais do GRE.

O duplo assassinato teria ocorrido em um barracão de madeira, que, conforme a denúncia, foi apelidado pelos próprios policiais de “casa de matar”. O documento aponta que as vítimas teriam sido torturadas e ainda tiveram os corpos esquartejados e queimados. O sumiço dos dois homens está sendo investigado pela Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida. (AS)


Equívoco. Luiz Flávio Sapori diz que grupo foi criado em momento de crise extrema, e sua atuação se confunde com a da unidade de elite da PM FOTO: Alex de Jesus - 12.4.2005
Equívoco. Luiz Flávio Sapori diz que grupo foi criado em momento de crise extrema, e sua atuação se confunde com a da unidade de elite da PM

Análise
Especialista defende a extinção
Andréa Silva

Conquistar uma vaga no Grupo de Resposta Especial (GRE) da Polícia Civil de Minas Gerais não é uma tarefa fácil. O policial candidato precisa se destacar entre os colegas para poder, então, passar pelo acirrado processo seletivo. Caso seja aprovado, o aspirante à chamada tropa de elite mineira ainda enfrenta rigorosos testes de aptidões físicas e psicológicas.

O treinamento do agente especial tem duração de um ano. Entre os testes para integrar o grupo estão simulação de rendição de criminoso mediante negociação, entradas em áreas de alto risco, simulação de combate real e incursão em presídios em casos de rebeliões.

Segundo a Polícia Civil, os exercícios simulam combates e com alto nível de estresse, tudo com o objetivo de criar no policial a frieza necessária para agir em situações extremamente perigosas.

Porém, os trabalhos executados pelos agentes do GRE são alvos de críticas de especialistas. O coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública da PUC Minas, Luiz Flávio Sapori, que acompanhou a criação do GRE, na época como secretário adjunto da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), explica que a unidade especial nasceu diante de uma crise.

Na ocasião, conforme Sapori, Belo Horizonte enfrentava um crescimento acelerado da violência e da criminalidade, e a população cobrava ações. “Atendendo ao clamor público, a Polícia Civil então criou a sua unidade tática. Ela nasceu de forma errada, fazendo a função da Polícia Militar especializada”.

De acordo com Sapori, o GRE acabou disputando espaço com o já existente e bem estruturado Grupo de Ações Táticas (Gate) da Polícia Militar, apontado pelo especialista como um dos melhores do país. Isso, segundo ele, gerou uma rivalidade entre os dois grupos, o que acabou atrapalhando o projeto de integração das duas corporações. “O atual governo deve pensar seriamente se o grupo é realmente importante. Fui contra a sua criação e sou a favor de sua extinção”, afirma.

O desconforto gerado pelo surgimento do grupo de elite da Polícia Civil e os benefícios destinados à unidade e aos membros da equipe afetaram também os próprios policiais civis de outras unidades. “Eles ficam com os melhores carros, melhores armas e ainda têm um helicóptero à disposição. Enquanto isso, temos que nos virar com veículos velhos e armas de baixo poder de fogo”, reclama um policial civil, que pediu para não ser identificado.

Para o diretor de assuntos internos do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil de Minas Gerais (Sindpol/MG), o policial Valério Schettino Valente, as duas polícias estão sofrendo inversões de papéis. “A Militar, que é a ostensiva fardada, deveria atuar nas ações preventivas, mas está fazendo investigações, muitas vezes descaracterizada. Já a Civil, a judiciária, tem função investigativa, mas está indo a campo, inclusive usando uniformes como ocorre com o GRE”.

Valente explica que não é contra a atuação do GRE, nem defende sua extinção. “Eles estão enfrentando um momento difícil. Precisamos unir forças e defender os profissionais do bem. Mas, se houver algum culpado em relação às denúncias, ele deve ser punido e responder pelo crime”.

Para Valério Valente, apesar dos escândalos envolvendo o GRE nos últimos dias, a maior parte do efetivo da Polícia Civil é de pessoas honestas e isso é o que deve ser considerado pela população.


Elite. Para ingressar no grupo especial, policiais passaram por exigente processo de seleção FOTO: Alex de Jesus
Elite. Para ingressar no grupo especial, policiais passaram por exigente processo de seleção

Vaidade
Disputa dividiu a corporação

Quando os problemas internos do Grupo de Resposta Especial (GRE) da Polícia Civil surgiram, o motivo apontado pelos agentes envolvidos no conflito foi a disputa pelo poder. Desde sua criação, de acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Civil, pelo menos cinco delegados estiveram à frente da unidade.

A “guerra” entre os agentes, porém, acirrou-se quando um inspetor assumiu o comando do grupo. “O que aconteceu foi uma disputa pelo poder. O GRE cresceu, e isso acabou despertando o interesse em muitos policiais. Quando o inspetor assumiu, isso gerou conflito, porque ele ocupou o cargo de um delegado”, contou um policial. Atualmente, quem comanda o grupo é o delegado Élcio Sá Bernardes, que não quis comentar as denúncias envolvendo a unidade. (AS)

“Não sou a favor da extinção do GRE. Precisamos defender os policiais do bem. Mas se algum for culpado, que pague pelos seus erros” Valente Diretor do Sindpol/MG

Fonte: http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=126132

Wellington A. Oliveira - Colaborador

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