Cerca de 300 famílias jogadas ao relento sob uma noite fria.
Gilvander Luís Moreira[1]
Ai
daqueles que pisam nos pobres, que tripudiam sobre a dignidade de
crianças recém-nascidas, de idosos, de deficientes e indefesos, todos
pobres!
Eu vi e nunca esquecerei. Vi e dou testemunho.
Vi
os pobres se organizarem durante meses buscando se libertar da cruz do
aluguel, que come no prato do pobre, que é veneno para quem ganha só
salário-mínimo.
Vi os cansados da humilhação de sobreviver de aluguel dar um grito de liberdade: Pátria Livre! Venceremos!
Vi
na madrugada do dia 21 de abril de 2012 cerca de 350 famílias
sem-terra e sem-teto ocuparem um terreno que estava abandonado há mais
de 40 anos.
Vi as cerca de 1.500 pessoas resistirem bravamente e não serem despejadas já no primeiro dia.
Via o MLB – Movimento de Libertação nos Bairros, Vilas e Favelas – coordenar a Ocupação Eliana Silva[2] com idoneidade, com participação ativa e paixão pelo próximo.
Vi
durante três semanas, quase todos os dias, o povo, melhor dizendo, a
comunidade que estava se formando na Ocupação Eliana Silva, grande
lutadora da Ocupação Corumbiara, em Belo Horizonte.
Vi
a sensatez da Dra. Moema, juíza de plantão, negar dia 21/04/2012, a
reintegração de posse à prefeitura de Belo Horizonte, porque a área
ocupada não tem registro, nem matrícula e nem está averbada. Até 1992
era terra devoluta do Estado de Minas Gerais.
Vi
com tristeza da juíza Luzia – que deveria gerar luz, mas gerou trevas
–, da 6ª Vara de Fazenda Pública Municipal, cancelar a decisão da juíza
de plantão e, mesmo sem a prefeitura de Belo Horizonte comprovar ser a
legítima proprietária e ter posse do terreno, em uma decisão ilegal
mandou reintegrar a prefeitura na Posse do terreno, autorizando a
polícia a usar a força, sem oferecer uma alternativa digna para as 350
famílias. A juíza se sensibilizou ao ouvir que a prefeitura tem a
intenção de formar ali um Parque Municipal, mas não sabe ela que na
região há um parque municipal que está abandonado.
Vi,
acreditando na sensibilidade da juíza Luzia, ela pedir o cadastro das
famílias e prometer fazer Audiência de Conciliação, mas não cumpria a
promessa de buscar a conciliação. Sem deliberar sobre Embargos de
Declaração, exigiu que o despejo fosse feito com urgência. Lá não havia
coisas, mas seres humanos que precisam ser respeitados na sua
dignidade.
Não
vi, mas ouvi que o prefeito de BH, sr. Márcio Lacerda e seu procurador
Geral, sr. Marco Antônio, pressionaram fortemente a juíza e
desembargadores para que o despejo covarde fosse feito sem piedade.
Vi, às 01:20h da madrugada quando um oficial militar ligou no meu celular e, dizendo que não podia se identificar me disse: “Frei
Gilvander, sou oficial militar. Estou chorando, não consigo dormir. Por
um dever de consciência estou ligando para lhe informar que um
fortíssimo aparato repressivo da PM cumprirá reintegração de posse e
despejará a Ocupação Eliana Silva, do Barreiro, hoje cedo. Estou
temendo que possa haver derramamento de sangue.”
Vi,
após passar toda a madrugada em claro, às 07:00h da manhã do dia
11/05/2012, a polícia militar chegar e congelar toda a área no entorno
da Ocupação Eliana Silva. Durante o dia inteiro quem saísse era
proibido de voltar e quem vinha para se fazer solidário era proibido de
entrar.
Vi chegar mais de 400 policiais da polícia militar e tropa de choque de MG.
Vi
chegar ao lado da Ocupação Eliana Silva um Caveirão – um tanque de
guerra -, que eu só tinha visto, via televisão, fazendo incursões em
comunidades pobres do Rio de Janeiro.
Vi centenas de policiais armadas até os dentes, com gás lacrimogêneo, cães, cavalaria. Muita truculência e prepotência.
Vi e ouvi policiais dizendo que sem-terra e sem-casa devem ser moídos no cacete.
Vi,
após 2 horas de tentativa de negociação, a tropa de choque atropelar
algumas pessoas: mães com crianças; o Paulo, que levou uma cacetada na
cabeça; a Dirlene Marques (economista da UFMG), que foi agredida por
policiais ao tentar entrar na Ocupação simplesmente para ser solidária.
Vi,
aliás, centenas de pessoas que vieram de longe para ser solidárias com
as 350 famílias da Ocupação Eliana Silva serem barradas durante o dia
inteiro sem poder ter acesso ao epicentro da operação de guerra que se
desenvolvia.
Vi
por várias vezes o helicóptero da PM fazendo vôos rasantes sobre a
Ocupação com metralhadoras apontadas para o povo. Vi centenas de
crianças chorarem e se abraçarem às mães com pavor daquele “pássaro”
que ameaçava atirar nelas.
Vi
muitas mães serem barradas pela polícia ao pedir para entrar na
ocupação para pegar remédios para dar seus filhos que padeciam alguma
doença.
Vi
o povo da Ocupação Eliana Silva, sob a liderança do MLB, resistir
bravamente de forma pacífica. Sentados todos diziam e repetiram o dia
inteiro: “Daqui não sairemos. Só se for presos e algemados.”
Vi,
com uma punhada no meu coração, policiais, garis e funcionários da
prefeitura de BH quebrarem 350 barracas de lona preta que era a única
casinha que as famílias tinham construído com muito carinho. Ao serem
questionados, alegavam constrangidos: “Tenho que cumprir ordens, pois
senão serei desempregado.”
Vi,
com os olhos do meu coração, o prefeito de BH, sr. Márcio Lacerda, o
Governador de Minas, sr. Anastásia, a PM de Minas, a juíza Luiza, o
TJMG e muitos comparsas pisarem, tripudiarem, cuspirem no rosto dos
pobres que têm a ousadia de não ser só força de trabalho para as
classes média e dominante, mas lutarem, de forma organizada, para
viverem com dignidade.
Vi vários veículos de a grande imprensa ouvirem só a versão da polícia que, com a maior desfaçatez diz: “Está tudo na normalidade. Estamos simplesmente cumprindo ordem. O povo vai ser levado para um lugar digno...”
Isso é querer tapar o sol com a peneira. Pisar na dignidade dos pobres
é normalidade? Tão bom seria se os pobres parassem de trabalhar para
seus opressores! Cumprem ordem, sim, mas ordem injusta, imoral. Levar
para “abrigos”, que na prática são campos de concentração, é levar para
lugar digno? Por que os 2 mil irmãos em situação de rua em BH preferem
sobreviver nas ruas do que ir para os abrigos da prefeitura?
Não
vi, mas penso, nessa segunda madrugada sem dormir, que os que
autorizaram o covarde despejo da Ocupação Eliana Silva, sem alternativa
digna, devem estar dormindo tranqüilos em quartos e mansões
confortáveis, enquanto cerca de 300 famílias que não se vergaram estão
passando essa noite fria ao relento no meio dos escombros de onde por
21 dias estavam vivendo felizes, em comunidade, com muita ajuda mútua,
solidariedade e espírito fraterno de luta.
Vi também a luz e a força de tanta gente que se fez solidário.
Vi, sob uma noite fria, o povo como ossos ressequidos clamando por ressurreição.
Vi
que fizeram uma grande sexta-feira da paixão dia 11/05/2012 aqui em
Belo Horizonte com a Ocupação-comunidade Eliana Silva, mas sei que o
amor é mais forte que egoísmo e, por isso, um domingo de ressurreição
será gestado.
Vi
o “presente” que as mães da Ocupação Eliana Silva receberam:
repressão. Aliás, há 15 dias uma Comissão na Ocupação já estava
planejando fazer um almoço especial para as mamães da Ocupação Eliana
Silva. Mas poderosos ofereceram fel às mães da Ocupação Eliana Silva.
Vi clamores que interpelam nossa consciência e os registrei em nove entrevistas que, em vídeos, estão em www.gilvander.org.br (Galeria de vídeos). A quem não viu sugiro ver essas entrevistas. Eu sugeri à juíza Luzia que as visse, mas ...
Vi muita coisa que me marcou indelevelmente, inclusive, caveirão para os pobres de Belo Horizonte.
Vi
e verei sempre que a luta por libertação integral e pela conquistas de
direitos humanos- e ecológicos - continuará sempre até depois da
vitória.
Belo Horizonte, às 01:10h madrugada do dia 12/05/2012, véspera do dia das mamães, expressão infinita do amor infinito.
[1]
Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica ; professor do
Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, no Instituto Santo Tomás de
Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte – e no Seminário da Arquidiocese de
Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br – www.gilvander.org.br – www.twitter.com/gilvanderluis - facebook: gilvander.moreira
Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
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