Um
mês após interromper primeira concorrência para duplicar a Rodovia da
Morte, Dnit anuncia suspensão do segundo edital, paralisando totalmente
licitação para reduzir a violência na estrada, que teve 2.564 acidentes e
124 óbitos só no ano passado
Alvaro Fraga - Estado de Minas
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| Sinuosa e com tráfego pesado, estrada tem rotina de desastres, como o que causou quatro óbitos em janeiro |
Oito meses depois de anunciadas pela presidente Dilma Rousseff em
solenidade no Palácio da Liberdade, em 13 de junho de 2012, as obras de
duplicação da BR-381, no trecho entre Belo Horizonte e Governador
Valadares, estão totalmente suspensas. Ato publicado ontem no Diário
Oficial da União (DOU), assinado pelo presidente da Comissão de
Licitação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes,
Arthur Luís Pinho de Lima, suspendeu o edital 791/2012, que abrange
quatro lotes da obra. Em 21 de janeiro, o edital 654/2012, que cobria os
demais seis trechos da licitação, já havia sido suspenso pelo Dnit.
A promessa do departamento era iniciar a duplicação da rodovia, uma das
mais violentas do país, em março, como havia prometido o ministro dos
Transportes, Paulo Sérgio Passos, em 31 de outubro, quando esteve em
Belo Horizonte. Na ocasião, Passos afirmou que as obras não sofreriam
atraso e estariam concluídas até 2016. Entretanto, com a suspensão dos
dois editais, que ainda não têm data para serem retomados, não há
estimativa de quando as obras serão iniciadas.
A duplicação da Rodovia da Morte é considerada fundamental para a
redução do número de mortes e acidentes na estrada. No ano passado,
foram registrados 2.564 desastres e 124 óbitos na via, cheia de curvas e
com tráfego intenso de veículos pesados. A BR-381 é a principal ligação
entre Belo Horizonte, o Espírito e o Sul da Bahia.
A suspensão do Edital 791 ocorreu a quatro dias da abertura da
licitação, marcada para terça-feira, dia 26, repetindo o roteiro do que
havia ocorrido com o Edital 654 em janeiro, às vésperas do início da
concorrência. O Estado de Minas entrou em contato com o Dnit solicitando
entrevista para esclarecer as causas da interrupção, mas a assessoria
de imprensa informou apenas que a inciativa foi determinada pela
“necessidade de ajustes no edital” e que não havia representante do
departamento disponível para explicar que tipo de falhas há no edital e
que ajustes devem ser feitos para que a licitação possa ser retomada.
O Dnit não soube informar sequer quando o novo edital será publicado e
tampouco esclareceu a situação do Edital 654, suspenso por pressão de
quatro construtoras que pediram a impugnação da licitação, alegando
falta de dados imprescindíveis para o início dos trabalhos, como estudos
geotécnicos e relatório de avaliação ambiental. Na ocasião, a
Construtora Aterpa M. Martins argumentava que “a ausência desses
documentos pode trazer inúmeros problemas. Um deles seria a falta dos
estudos técnicos, o que torna impossível para o licitante projetar com
segurança seus gastos”.
Os quatro lotes suspensos ontem somam 167,1 quilômetros e são os
seguintes: Governador Valadares a Belo Oriente (78,2 km); Belo Oriente a
Jaguaraçu (60,2 km); Nova Era a João Monlevade ( 20,7 km); e Caeté à
Avenida Cristiano Machado (13,4 km), sendo que parte deste último trecho
faz parte do edital interrompido em janeiro.
Pressão parlamentar
A suspensão do segundo edital da duplicação da Rodovia da Morte acendeu o
sinal vermelho da bancada mineira no Congresso. Na semana que vem,
parlamentares do estado prometem se organizar para cobrar da presidente
Dilma Rousseff e da direção do Dnit acompanhamento maior do andamento
dos editais da rodovia. A intenção é encaminhar requerimento ao Palácio
do Planalto, para que sejam detalhados os motivos dos repetidos
adiamentos, os problemas dos editais apontados pelas empresas
interessadas na obra, além das soluções possíveis para que a
concorrência volte a tramitar normalmente.
Desde o ano passado, alguns parlamentares já alertavam que os preços
estimados para alguns trechos da obra estariam abaixo do que as empresas
calculavam, o que poderia causar problemas judiciais e novos atrasos na
licitação. Segundo o coordenador da bancada mineira no Congresso,
deputado Fábio Ramalho (PV), o governo precisará negociar soluções a
curto prazo, para conseguir tirar a obra da gaveta este ano. “Essa
duplicação já virou uma novela. Desde o governo de Fernando Henrique,
passando pelo Lula, e agora com a Dilma. Que o governo procure os meios
necessários para retomá-la de uma vez. Em outros estados, grandes obras
estão andando, e a principal obra de Minas não avança”, criticou
Ramalho.
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ENQUANTO ISSO...
... ATÉ PEDÁGIO É ADIADO
A
concessão dos trechos mineiros das rodovias BR-040 e BR-116, cujos
leilões estavam previstos para janeiro e foram adiados, foi incluída no
balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), divulgado
ontem pelo Ministério do Planejamento. O presidente da Empresa de
Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo, disse que a
prorrogação do leilão foi feita a pedido dos investidores e que esses
dois trechos serão leiloados em junho ou julho, após a divulgação dos
editais de outros sete trechos previstos no Programa de Investimentos em
Logística entre abril e maio.
ANÁLISE DA NOTÍCIA
Falta de vontade política
As explicações do Dnit para a suspensão do segundo edital de duplicação
da BR-381, justamente o que abrange o maior trecho da obra, não são
satisfatórias. Alegar que o processo foi interrompido pela "necessidade
de ajustes" não é suficiente. Como a licitação da obra mais importante
de Minas, anunciada com pompa e circunstância pela presidente da
República, foi interrompida por falhas no edital? O Dnit teve prazo mais
que suficiente para elaborar e rever toda a documentação e só agora,
faltando quatro dias para a abertura da concorrência, detecta os erros?
Mais que problemas administrativos, jurídicos e burocráticos, a
suspensão da licitação demonstra uma grande falta de vontade política
com Minas Gerais. (Álvaro Fraga)
VOCÊ SE LEMBRA?
“As empresas anunciaram os questionamentos cinco dias antes da abertura
das propostas. Como não houve tempo suficiente para a análise de todos, o
edital foi suspenso”
Dnit, ao
justificar, em janeiro, a suspensão da primeira concorrência. Um mês
depois, parece não ter havido tempo tampouco para adequação do segundo
edital, também interrompido, desta sem vez sem mais esclarecimentos, às
vésperas do início do processo.


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