Fernando Gabeira* - O Estado de S.Paulo
O intenso fim de semana na política foi um dos temas do
Twitter. Dois candidatos da oposição uniram forças e foram muito
comentados, perdendo apenas para temas como um quadro do Programa Raul
Gil (SBT). As eleições presidenciais estão chegando e cada um, de acordo
com suas limitações de tempo e restrições profissionais, tem a missão
de fazer alguma coisa.
Individualmente, tentei fazer o PV e Marina Silva se entenderem e o
partido ser o plano B caso a Rede não conseguisse registro no TSE, o que
considerava altamente provável. Achava que o campo grosseiramente
definido como socioambiental precisava apresentar-se como alternativa.
Ele ainda é muito fraco. Dependia de uma união interna para disputar a
simpatia do conjunto da oposição. Nos meus cálculos, o campo precisaria
também rever alguns de seus dogmas para sair do gueto ecológico. Um é o
de se fixar só na defesa de um Código Florestal abstrato, lutando contra
ruralistas, que defendem outra abstração.
Minha proposta, em primeiro lugar, é introduzir o elemento científico
para definir quanto de uma área deve ser preservado e quantos metros da
margem de um rio serão resguardados para protegê-lo. No caso específico
dos rios, considerava que a discussão em Brasília era muito limitada e
deveria contar com os comitês de bacia, que conhecem o tema e trabalham
diariamente com ele. Isso no caso de comitês de bacia que trabalham e
venceram a etapa do faz de conta.
O mais importante para fortalecer o campo socioambiental seria
reconhecer a importância da alimentação num planeta que brevemente
chegará aos 9 bilhões de habitantes. Posso discorrer muito tempo sobre a
importância política desse tema, mas a Primavera Árabe e revoltas em
países africanos revelam como ele pode desestabilizar governos
incapazes, momentaneamente, de financiar alimentos a preços acessíveis.
Dentro dessa visão planetária, não tem sentido hostilizar o agronegócio,
mas sim dialogar com ele e levá-lo, quando possível, a uma convergência
com as propostas de sustentabilidade.
No meu caso particular, aprendi muito sobre a realidade agrícola
discutindo com ex-ministro Alysson Paulinelli, ou sobre a produção de
carne ouvindo o também ex-ministro Pratini de Moraes. Não tenho medo de
ser chamado de velho conciliador, desde que acrescentem o adjetivo
curioso. Colocar o tema dos alimentos numa projeção ecológica não só
aumenta a credibilidade da proposta, como indica pé no chão, contato com
a dura realidade cotidiana.
Meus esforços para reaproximar Marina e o PV foram em vão e as razões
do fracasso não cabem numa análise política. Talvez num outro suporte,
um romance psicológico, conseguisse explicar o que aconteceu. Os dois
lados estavam irredutíveis.
Por baixo desse esforço havia outra divergência: a necessidade de um
plano B. A realidade tem desmentido minha análise de que o plano B é tão
importante quanto uma capa de chuva em Bruxelas. A insistência em não
tê-lo significa confiar em certos resultados que podem falhar. Não me
parece oportunista um candidato a presidente que tenha planos B. Em caso
de vitória, terá de se acostumar com eles.
Com os rumos da oposição já traçados, mais a escolha de reduzir
candidaturas, e não ampliar o leque, como pedia minha análise, só me
resta agora tentar contribuir de outra maneira, dentro de minhas
limitações. Uma forma de contribuir com uma alternativa para o Brasil
foi ler 1.200 páginas dos debates da chamada esquerda democrática e
produzir uma síntese para a Fundação Astrojildo Pereira, do PPS.
Quando os atores são tão imprevisíveis, é importante concentrar-se no
roteiro. Apesar do apelo eleitoral, não basta condenar o PT e conseguir
com isso um vínculo de simpatia em escala nacional. É preciso dizer
como seria o Brasil pós-PT. De que forma impulsionar o crescimento
econômico, como estabelecer políticas institucionais mais respeitosas,
como se situar no mundo sem arroubos bolivarianos - há muitas coisas que
precisam ser definidas com clareza.
O senso comum nos garante que acompanhando e participando da política
podemos transformá-la. Mas o universo político brasileiro move-se com
tanta independência e autonomia que parece uma galáxia distante. O
balcão de negócios está instalado com toda a franqueza. Deputados vendem
emendas, votos e, agora, o próprio mandato aos partidos em competição
por bancadas numerosas.
O governo do PT contempla isso tudo com a maior tranquilidade porque
acha que, no fundo, a desagregação vai ajudá-lo a permanecer no poder,
sua obsessão. Não importa se seu reino se transformou num pântano, o
importante é sentar na cadeira presidencial, distribuir cargos, verbas,
enfim, o combustível que move essa sórdida engrenagem. Os marqueteiros
ensinam o caminho do coração popular. Basta reservar para a propaganda
uma boa parte dos recursos.
Espionado freneticamente pelos americanos, salvo pelos médicos
cubanos e marchando triunfalmente para o topo da economia mundial,
apesar do pessimismo dos próprios economistas, o PT vai construindo sua
fantástica narrativa. Tudo pode acontecer num país imprevisível, onde os
presidentes nem se preocupam mais em fazer sentido. As respostas
desconexas de Dilma são apenas a continuidade hesitante da sólida
ignorância de Lula, que sonhava com uma Terra quadrada para atenuar a
poluição e com um mundo mais justo onde as mães não nascessem
analfabetas. Tudo isso com penteado produzido por um cabeleireiro
japonês, que deve prestar também seus serviços à Coreia do Norte, a
julgar pelo estilo de Kim Jong-un.
Parece ironia, mas se a oposição deixar também de fazer sentido, seja
por uma tardia descoberta dos encantos da literatura ou pela recusa a
analisar friamente os problemas nacionais, aí, então, estaremos
perdidos. Só nos restará escolher entre o bom humor dos comediantes e o
mau humor dos manifestantes, mas até neste caso um tipo de síntese
conciliatória é desejável. Um bom exercício seria completar a frase:
Brasil, um país de todos...
*Fernando Gabeira é jornalista.
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