2/11/2013 às 01h00
Adherbal Ferreira perdeu a filha, de 22 anos, na tragédia de Santa Maria (RS)
Caroline e Jennefer tiveram as vidas interrompidas ainda muito jovens; pais relatam a dor da ausência
Montagem/R7
Adherbal Ferreira fundou a Associação dos Familiares de Vítimas e
Sobreviventes da Tragédia em Santa Maria como uma tentativa de cobrar
Justiça após o incêndio que deixou 242 mortos no dia 27 de janeiro deste ano. Ele perdeu Jennefer Ferreira, 22 anos. Em sua carta, ele diz que ainda lembra de pequenos detalhes da filha, como o perfume.
“Querida filha sua falta é enorme, nunca imaginei estar separado
assim. Para mim, sua viagem está demorando, não vejo a hora de lhe
encontrar. Aqui estou tomando a frente de assuntos relacionados a uma
tragédia infeliz. Apesar de dizerem que são 242 jovens, ainda não
acredito que você estava lá, minha cabeça está bloqueada para isso.
No máximo quero, devo, preciso, acreditar que você está morando com Deus. Também creio que estás bem e aí é lindo. Seu quarto ainda intacto. As vezes para matar a saudade eu durmo em sua cama, também seu irmão. Ah.. não se preocupe, deixamos tudo arrumadinho, sua mãe sente muito sua falta. Ela fala todos os dias como você era destemida, dirigia muito bem, levava ela ao mercado... Ahhhh guria que falta, queria que voltasse logo. Nunca me afastei de você, é pior assim. Pergunto a Deus por que, mas não ouço resposta. Hoje enfrento o mundo atrás da justiça, pessoas são contra nós, e outros pais, não conseguimos entender, pois eles têm os filhos perto, ali na frente, tocam neles, abraçam, beijam e brigam, o que será que lhes faltam... Será FÉ...?
No máximo quero, devo, preciso, acreditar que você está morando com Deus. Também creio que estás bem e aí é lindo. Seu quarto ainda intacto. As vezes para matar a saudade eu durmo em sua cama, também seu irmão. Ah.. não se preocupe, deixamos tudo arrumadinho, sua mãe sente muito sua falta. Ela fala todos os dias como você era destemida, dirigia muito bem, levava ela ao mercado... Ahhhh guria que falta, queria que voltasse logo. Nunca me afastei de você, é pior assim. Pergunto a Deus por que, mas não ouço resposta. Hoje enfrento o mundo atrás da justiça, pessoas são contra nós, e outros pais, não conseguimos entender, pois eles têm os filhos perto, ali na frente, tocam neles, abraçam, beijam e brigam, o que será que lhes faltam... Será FÉ...?
Filha se vocês estão aí, se isso é verdade, deve haver uma razão,
gostaria muito de saber. Eu estou me esforçando para entender. Ainda bem
que tenho muita FÉ e acredito infinitamente em Deus e sei que ele é um
paizão para vocês e muito melhor que eu, também aprendi que, Ostra feliz
não produz pérola, sim ela precisa se irritar e transformar daí produz
uma linda pérola. Mas diga a Deus que eu estou aqui à sua disposição
para o que der e vier, fico no aguardo de respostas. Filha sua família
aqui te ama muito.... Mas muito mesmo. Em breve nos encontraremos. Bem,
fico no aguardo de Deus. Beijos e abraços de todos nós EU TE AMO
DEMAIS”.
Caroline Lee, de 15 anos, foi morta no dia 21 de outubro de 2012, em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A estudante
e o namorado dela voltavam a pé de uma festa quando foram abordados por
dois dos criminosos na rua Piauí. Um terceiro bandido armado participou
da ação. Eles tentaram levar a bolsa de Carolina, porém, ela reagiu e
levou dois tiros. Marcos Vinícios Correia Gomes, de 19 anos, Alex
Rodrigues Venâncio, de 18, e Claudinei Avelino Modesto, de 18, foram
condenados a 33 anos de prisão pelo crime. A mãe de Coroline, Maria Lee,
afirma que é difícil escapar da culpa pelo o que ocorreu.
“A Caroline tinha perdido o pai há sete anos. Ela tinha nove anos.
Era muito inteligente. Fazia tudo, corria atrás de tudo, violão, inglês,
escola. Tinha um lindo futuro. Eu confiava demais nela e me culpo por
não ter impedido que ela namorasse. Ele que a convidou para ir a uma
festa e decidiu voltar para a casa tarde da noite. Eu não estou falando
que ele é culpado, mas ela tinha apenas 15 anos e ele 24. Foram
irresponsáveis. Eu vivo uma angustia sem fim porque sei que ela não vai
voltar. Fui levar rosas no túmulo dela com o namorado quando fez um ano.
Quando eu saí, senti que ela me deu tchau, se despediu.
Filha, você me deixou numa situação muito difícil. Me dê forças de
onde você está porque aqui está sendo muito difícil. Você me abandonou.
Quem perde um filho sente uma dor que não passa e sei que milhares de
pessoas vivem isso. Hoje eu só tenho um filho. Ele me fala que não tem
vontade de viver porque perdeu o pai, a irmã e agora só tem eu, que
apenas sobrevivo.
Sou recepcionista e sempre trabalhei muito para deixar um bom
futuro. Onde ela esteja, eu só quero que você esteja bem e feliz. Vendo
as estrelas caírem, como você sempre falava. Sua mãe está triste e
sofrendo, mas tento ter força para que vocês não me vejam triste. Espero
que esteja em um bom lugar com o seu pai. Com muita luz. Eu te amo”.
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