04/11/2013 06:56 - Atualizado em 04/11/2013 06:56
Lucas Prates/Hoje em Dia
Depois da ‘choradeira’ dos prefeitos de primeiro mandato pela queda do
repasse de recursos federais a Minas Gerais e caixa vazio das
administrações municipais, no primeiro trimestre deste ano, pelo menos
325 das 853 prefeituras terão que botar o pé no freio para ajustar as
contas públicas, depois de terem sido alertadas pelo Tribunal de Contas
do Estado (TCE-MG).
Levantamento feito pelo Hoje em Dia junto a dados disponibilizados pelo
Tribunal, entre 1º de janeiro de 2013 a 31 de outubro, aponta que do
total de prefeituras notificadas, 207 administrações municipais gastaram
entre 90 a 95% do limite máximo (ou seja, 54% para o Executivo
municipal).
Segundo especialistas
ouvidos pela reportagem, a folha do funcionalismo representa cerca de
70% dos gastos da receita corrente líquida dos municípios. A regra é
estabelecida na Lei Complementar 101/2000, conhecida como Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF) que estabelece normas para as finanças
públicas.
Desembolsados, por exemplo, 90% do limite máximo de 54% da receita
corrente líquida, ou seja, 48,6%, o município não sofre restrição.
Apenas recebe uma notificação de alerta do TCE.
Por sua vez, acima de 95% do limite, o prefeito será impedido de adotar medidas que venham a aumentar o gasto com pessoal.
O TCE não tem o poder para punir um município que esteja em desacordo
com a LRF, no entanto, tem prerrogativa de analisar as finanças
públicas, a partir de dados apresentados pelas próprias prefeituras
sobre gastos por quadrimestre.
Por meio da assessoria de imprensa, o Tribunal afirma que os alertas
emitidos têm “periodicidade variada” e que são “rotineiros”, com a
função de orientar.
De acordo com o professor do Instituto Brasileiro
de Mercado de Capitais (Ibmec) e ex-secretário de Estado de
Planejamento em Minas Gerais, Frederico Penido de Alvarenga, é no
primeiro ano de governo que os prefeitos devem colocar o caixa em ordem,
mas é preciso que haja “vontade política” dos eleitos.
“O que se vê é uma passividade dos prefeitos, o receio de queda de
popularidade, a máquina pública inchada com cargos comissionados ou
contratados sem concurso. Além disso, os prefeitos não querem apertar a
cobrança do IPTU, do ISS, não reforçam equipes de fiscalização”,
observa. Para Alvarenga, existem apenas três maneiras de fazer o ajuste:
aumentar a receita própria, diminuir
despesas, ou fazer ambos “ao mesmo tempo”. “O chefe do Executivo
municipal que não se adequar agora terá maiores problemas no futuro para
serem resolvidos e pode passar três anos sem poder investir, apenas
arcando com os vencimentos atrasados”, acrescenta o especialista.
Segundo a LRF, os gestores que gastaram além do limite prudencial de
90% dos 54% da receita líquida não poderão dar aumentos, reajustes ou
adequação de vencimentos, ou ainda, criar cargos, alterar a carreira de
servidores, amenos em casos de aposentadoria ou falecimento de
servidores, para evitar estouro das contas públicas.
No Norte de MG, limite não foi respeitado por ‘inchaço da máquina’
As prefeituras que estouraram o limite prudencial da receita líquida
concentram-se no Norte do Estado. Em Varzelândia, cidade de 19 mil
habitantes, os gastos com pessoal atingiram 51,24% em outubro deste ano.
Em São Francisco, com 54 mil habitantes, e em Padre Carvalho, que
possui 5,8 mil moradores, já foram liberados 51,21% do caixa municipal com os servidores, entre ativos e aposentados.
Os dados sobre o inchaço de pessoal foram publicados pelo TCE-MG e a
estimativa populacional do IBGE é de 2011. Entre as prefeituras que
ultrapassaram por pouco o limite estão Vespasiano, na Região
Metropolitana de Belo Horizonte, e Monte Belo, no Sul de Minas. Elas
gastaram, respectivamente, 48,66% e 48,67% com o funcionalismo.
O cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, doutor em Ciência
Política e Sociologia pelo Iuperj e professor da Universidade Federal de
Juiz de Fora (UFJF), explica que em regiões mais empobrecidas de Minas
Gerais ou com economia menos dinâmica, chega a ser “comum” o inchaço da
máquina pública. “As prefeituras passam a ser as principais empregadoras
em municípios que não são viáveis economicamente, por haver poucas
oportunidades na iniciativa privada”, diz.
Uma das maneiras para sanar o problema, na visão do pesquisador da
UFJF, é criar mecanismos de produção local para gerar receita própria.
“Em casos como os do Norte do Estado, deve-se incentivar o comércio e a
indústria locais, até tornar a cidade autossustentável, menos dependente
de repasses do governo federal”.
Para Figueira, o reajuste do salário mínimo e programas de
transferência de renda, por exemplo, o Bolsa Família, que completou 10
anos de criação na última semana, são outras maneiras de incentivar a
economia local e viabilizar novas fontes de emprego que não na
administração municipal.
“Entre famílias carentes e aposentados, o volume de dinheiro aumenta e a tendência é de fortalecer o comércio local”, diz.
“Entre famílias carentes e aposentados, o volume de dinheiro aumenta e a tendência é de fortalecer o comércio local”, diz.
Prefeitos dependem de repasse federal
Prefeito nenhum quer fazer ajuste nas contas e o momento é no primeiro
ano de mandato. Politicamente pode repercutir mal. Gestores que não têm
visão técnica, às vezes, não fazem ajustes firmes, porque a prefeitura
tem projetos da gestão anterior, até do ex-prefeito que o apoiou na
campanha. Tem também a equipe de trabalho do prefeito anterior e o atual
que quer colocar o pessoal dele. Outro lado é que os prefeitos são
dependentes dos fundos de participação dos Estados e da União.
Eles estão certos quanto às críticas a desonerações federais no Imposto
de Renda (IR) ou no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que
compõem a base de cálculo do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e
afetam as verbas que chegam ao município.
O Produto Interno Bruto (PIB) este ano será baixo e para 2014 não são
esperados aumentos substanciais. É preciso pensar a longo prazo e
aumentar a receita, cortar despesas ou as duas coisas ao mesmo tempo. Os
problemas nos EUA e Europa tendem a continuar. Minas Gerais, forte em
commodities, poderá sentir o arrefecimento do crescimento da China.
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