Denúncia
Pistola apreendida em Betim e que deveria estar sob guarda da Justiça foi encontrada em Neves. Objetos que tinham que ser examinados nunca chegaram ao local da perícia
Desaparecimento. Pistola enviada ao Instituto de Criminalística não chegou ao local para ser periciada
PUBLICADO EM 04/11/13 - 03h00
A falta de transparência e de controle sobre o destino de armas de fogo
apreendidas no Estado abre brechas para o comércio ilegal que abastece
grupos criminosos, principalmente ligados ao tráfico de drogas. O TEMPO teve
acesso, com exclusividade, a ocorrências que revelam a fragilidade do
sistema que envolve as Polícias Militar e Civil e o Tribunal de Justiça
de Minas Gerais (TJMG), que deveriam impedir o retorno do armamento às
ruas. A suspeita é que até mesmo Policiais civis estariam contribuindo
para o desvio dos arsenais apreendidos em Betim.
A suspeita surgiu em setembro deste ano, depois que uma pistola que
pertencia a um Policial Militar da cidade – apreendida e entregue à
Polícia Civil após uma troca de tiros, em 2010 – foi encontrada por
militares com cinco traficantes de Ribeirão das Neves.
Na teoria, a pistola deveria estar sob a custódia da Polícia Civil de
Betim, já que, no boletim de ocorrência, consta a entrega do armamento à
corporação. Pelo procedimento correto, a arma deveria ser encaminhada
para a perícia, na capital, e depois ficaria sob a guarda da Justiça,
mas há indícios de que ela foi desviada. A reportagem esteve no
Instituto de Criminalística, onde são realizados os exames de balística
no Estado, e descobriu que a arma nunca passou pelo local.
Militares de Betim contam que não é a primeira vez que ocorrem
extravios. “Isso acontece direto. Há um mês, prendemos um bandido que
estava com uma arma ilegal. Fizemos o boletim de ocorrência na
delegacia, ele foi liberado, e, no dia seguinte, o prendemos de novo na
mesma situação”, conta um militar, que pediu anonimato por medo de
represálias.
Já o delegado regional da cidade, Kleyverson Rezende, alega que
desconhece qualquer denúncia de desvios de armas. “Eu não estava aqui em
2010. Pode ter acontecido um extravio? Pode. Mas acredito que isso não
ocorra mais, pois temos um controle rígido por meio do nosso sistema”,
destacou.
Falha. Uma maneira de saber se o que é apreendido
chega ao TJMG seria por meio da comparação entre o número de armas
recolhidas pela PM e o total recebido pela Justiça. Segundo a Secretaria
de Estado de Defesa Social, os militares apreenderam 214 armas em
Betim, entre janeiro e agosto passados. Já o tribunal não diz quantas
armas recebeu no mesmo período. Em nota, afirma apenas que “não informa o
número de armas apreendidas nem local de armazenamento, por questões de
segurança”.
Na avaliação do professor Luis Flávio Sapori, coordenador do Centro de
Pesquisas de Segurança Pública da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, o controle das informações é frágil e deveria haver
prestações de contas à população. “A comunicação entre as instâncias é
deficiente, e isso fragiliza o controle. A sociedade não tem noção do
que ocorre com esse armamento apreendido. Há um ‘buraco negro’”.
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