domingo, 30 de outubro de 2016

Refletir sobre a morte ensina a viver intensamente o presente

TABU

O medo de se falar sobre o fim da nossa existência aflige porque lidamos com perdas o tempo todo

PUBLICADO EM 30/10/16 - 03h00
Seu Olinto Sebastião dos Santos, 55, só fala qual é sua profissão se for “muito pressionado”, diz. Ele já deve ter enterrado algo em torno de 50 mil corpos durante 20 anos de trabalho em cemitérios. É coveiro, mas só para os íntimos, porque, para o público em geral, afirma que é pedreiro e evita estender a conversa. “Tem muito preconceito, né?” Sim, Seu Olinto, especialmente no Brasil e nos países ocidentais, a morte é um tabu. Mesmo certos de que estamos todos “na fila” dela – comenta sabiamente o coveiro – o assunto “morrer” não entra em uma roda de conversa, pois amedronta e expõe o fim da nossa existência. Nossa sociedade não tolera essa ideia, prefere não falar na morte para “não atrair”, quer falar de assuntos mais triviais e fazer prestações a perder de vista.
Do fundo silencioso do cemitério do Bonfim, na região Noroeste de Belo Horizonte, só se escutam os pássaros e, bem de longe, o eco da cidade em movimento. Dali da morada dos mortos, enxerga-se o mundo dos vivos – a imagem dos jazigos se funde com a dos prédios urbanos. A rodoviária da capital também é avistada por entre os túmulos, em uma irônica mensagem sobre as viagens que o ser humano pode fazer. E ao direcionar o olhar para o alto da capela do parque, onde 212 mil corpos estão enterrados, vê-se nos quatro cantos esculturas de ampulhetas com asas, nos lembrando que o tempo voa. Podemos morrer agora, interrompendo alguma tarefa, faltando ao almoço marcado com um amigo, deixando por fazer uma viagem de férias planejada.
Negar essa possibilidade, para não sofrer, não nos blinda, tampouco nos impede de lembrá-la, mas gera angústia. “A gente passa a criar vários nós que vão enterrando a vida da gente. Negamos a morte, mas vamos a todo momento esbarrando em perdas e temos um esforço tremendo de sustentar aquela negação”, fala a psicóloga Júnia Drumond, especialista em tanatologia (ciência que estuda o processo do morrer). É assim quando não se leva as crianças ao cemitério ou não se conta a elas que um cachorrinho morreu e arruma outro igual para colocar no lugar. “A criança fica sem entender aquele cachorro, que não é dela, fica um enredo truncado, que dá mais trabalho, do que sentir, viver e chorar”, esclarece Júnia.

Vida. Aprender a lidar com a morte é, portanto, “permitir que o sofrimento venha e se vá”, emenda a psicóloga. “Dessa forma, a gente valoriza muito mais a vida e o que de fato é importante”, garante. Não é que temos que ficar pensando no nosso fim o tempo inteiro, isso não é sadio. Trata-se de fazer com que a morte ilumine a vida, nas palavras do padre Renato Alves, doutorando no tema: “saber morrer é saber viver”. Para o teólogo, a reflexão sobre a morte “ensina a viver intensamente o presente, cada instante do agora”.
A questão é: por que no Brasil, um dos países mais religiosos do mundo, as pessoas temem tanto a finitude, se a crença é de que há uma vida pós-mortal nos aguardando no paraíso, com a ressurreição? “Porque nosso desejo é de ser imortal nessa condição de vida, de viver eternamente com esses vínculos, com essa estrutura”, responde o padre, prontamente. O fato de a morte ser certa, mas imprevisível nos aflige, confessa Alves, “porque deixaremos pais, filhos, pertences”.
Fé. Devotamente falando, a morte deveria ser vista como lugar de passagem da vida terrena para a definitiva, prega o teólogo. Carnalmente, “o tabu da morte substituiu o tabu do sexo e se tornou uma realidade vergonhosa”. Aí entra a religião, que, segundo Alves, vem nos dar uma solução para o problema e diz “que você vai continuar a viver, porém, em outra esfera”. No aprendizado da psicóloga Júnia, a espiritualidade ajuda e muito, já a religião, “depende de como a pessoa vai vivê-la”.

CUIDADOS PALIATIVOS

Início e fim da vida no hospital

No passado, o lugar do nascer e do morrer era a casa, hoje, é o hospital. A sociedade se afastou do nascimento e da morte, que deixaram o seio familiar para adentrar o ambiente hospitalar. São, agora, coisas privadas. Com isso, as pessoas estão morrendo sozinhas, em uma maca e cheias de tubos. A morte, diz o padre Renato Alves, tem que ser “com dignidade”, palavra de origem latina, que significa “honradez, virtude, consideração”.
Em busca desses sentidos para a morte estão as pessoas que trabalham com cuidados paliativos (que no latim, quer dizer “proteção”). Eles prestam assistência aos doentes crônicos. Onde não se tem mais cura, entra o cuidar, amenizando os sintomas, olhando com carinho para os últimos dias, levando os pacientes para casa.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu a prática há 15 anos como uma abordagem que melhora a qualidade de vida e de morte de pacientes e familiares.
O Brasil é hoje pressionado a oferecer esse tratamento nos hospitais, pois ainda é muito incipiente. “Não temos política pública para isso. Muitos pacientes vão a óbito internados, é uma morte escondida, sem leveza”, afirma Francine Portela, psicóloga oncologista, com experiência nos cuidados. (JS)

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